COMO TUDO COMEÇOU - UMA HISTÓRIA DE AMOR


Já são mais de trinta e seis anos! Eu tinha vinte anos, e estava numa semana de folga em minha cidade. Estudante de engenharia, queria aproveitar a Semana Santa – feriado na universidade - para relaxar e colocar os estudos em dia. Ao contrário dos dias normais, acordaria tarde e dormiria muito mais que o normal. Bem, essa era a minha intenção. Porém, minha mãe tinha outros planos.

- Acorda, João! Esqueci de te dizer, mas você tem de levantar agora pois, daqui uns dez minutos, o filho da vizinha vem para ter aula de matemática. – disse isto e já tratou de abrir a janela, abortando qualquer chance minha de resistir a sua ordem.

- Quê? Aula de matemática? Eu? Pra quem?

- Isso! O filho da vizinha está tendo problemas com as contas, e prometi que você daria aulas particulares a semana toda para ele.

- Eu? – fiquei sem saber o que dizer – Mas, não sou professor. Nunca dei aula . . .

- Você sempre foi bom em matemática. Além disso, estuda engenharia. Sabe o suficiente para ensinar um menino do terceiro ano primário. Ele é um menino ótimo. Você vai adorá-lo. Vamos! Levanta logo. Seu café já esta na mesa.

Nunca pensei em desobedecer minha mãe, e não seria daquela vez. Mas, dar aulas? Eu? Nunca pensara em tal aventura. Como trataria um garoto de oito ou nove anos? Por um momento, fiquei entre perplexo e receoso. Afinal, pelo que ouvira, minha mãe não tinha nenhuma dúvida de que meu atendimento seria um sucesso. Então, em poucos minutos, de mera surpresa, minha situação agora tinha um agravante: não queria desapontar a dona Irene. De repente, meus dias de folga estavam se transformando em algo que não planejara. Porém, como era costume, respirei fundo e fui à luta.

Depois do café, em poucos minutos, bateram no portão e fui atender. Lá estava ele:

- O senhor é o seu João? – falou o menino loiro, magrinho e com a fala mais simpática que ouvira nos últimos tempos – Minha mãe falou com a dona Irene . . .

- Sim! Já sei! – respondi, com um sorriso, na tentativa de deixá-lo mais relaxado (e também a mim, por que não?) – Vamos entrando, que a aula já vai começar.

Em alguns instantes, estávamos sentados um ao lado do outro. Aos poucos sua timidez foi se dissipando e ele conseguia me fazer entender quais eram suas dificuldades. Ao ver aquele pequeno caderno e sentir o cheiro de borracha e madeira que vinha do seu estojo, senti-me a viajar para um momento maravilhoso da minha vida. Naquela mesma mesa, mais de dez anos antes, eu estudara exatamente aqueles conteúdos. Os mesmos problemas, as mesmas contas, as expressões . . . Por um instante, sem mais, senti que amava loucamente aquela situação nova que minha mãe acabava de me dar de presente. Algo me diz que ela já sabia . . . Mas, era só o começo.

Aos poucos, aquilo se tornava um desafio. Como fazê-lo entender coisas que sua professora não conseguira. E a tal senhora devia ser experiente . . . Então, decidi me soltar e fazer as coisas como me mandava o coração. E, sinceramente, naquela semana o órgão que mais (e melhor) trabalhou em mim foi o coração. Parecia que me estavam transplantando um novo. Ou seria um novo amor . . . Ou, quem sabe, o verdadeiro amor. Aquele que adormecera e esperava paciente pelo dia em que seria liberto. E o dia chegara. Aquele era o primeiro dos dias mais lindos da minha vida. Um tempo que começou com surpresa e segue até hoje. “Imortal, posto que é chama”, e infinito como os números.

Em cada movimento que realizava - tentando fazê-lo entender algoritmos, operações, e o ajudando a compreender a lógica de um problema qualquer -, percebia um mundo mágico e divertido a se desvelar. A brincadeira era emocionante. Eu sugeria coisas, fazia perguntas, mostrava caminhos. Ele ouvia, pensava, arriscava . . . E, sem que tivesse qualquer expectativa de estar no caminho certo, ele me surpreendia. Fazia o que lhe sugeria. Mas, se arriscava a fazer mais. Queria mais. Estava também amando aquele momento. Sem que me desse conta, estava lhe apresentando uma das mais lindas invenções humanas: a Matemática! Um milagre!

Nos outros dias, me pegava acordando mais cedo. Rabiscava exercícios novos, a fim de passá-los ao garoto. Teve um dia em que fui ao portão e me pus a esperá-lo para a aula. Estava tocado! Descobrira um caminho certeiro para ser feliz. De repente, eu me via como “professor de matemática”!

No último dia, acabamos mais cedo, e o convidei para algo que costumava fazer quando tinha sua idade. Fomos jogar bola na rua! Despedi-me dele, emocionado. Quando o vi se afastar, senti algo estranho em mim. Era como se prometesse àquele vulto minúsculo que honraria a caridade que me fizera. Não iria decepcioná-lo jamais.

Ao entrar em minha casa, disse à dona Irene:

- Que rapaz simpático! E como é inteligente! Sabe de uma coisa: se, um dia, tiver um filho, vou lhe dar o nome dele.

- Não falei que daria tudo certo?

A partir daquele dia, não mais deixei de dar aulas. Particulares, em colégios, monitorias. Tornei-me engenheiro e uma das minhas atribuições era treinar gente nova, quando iniciavam o trabalho na empresa à qual pertencia. Com o tempo, já dava suporte técnico e me apresentava em reuniões a fim de discutir questões (de maneira pedagógica) com os clientes. Porém, mesmo tendo um trabalho na engenharia, nunca ficava sem dar aulas em colégios. Trabalhava com matemática, física e química – as ditas “exatas”. Era um engenheiro que se dava o luxo de ser professor nas horas vagas. Estava satisfeito, mas não completamente. Um dia, decidi mudar.

Após nove anos trabalhando como engenheiro, decidi deixar a profissão. Pedi as contas e fui, com a cara e a coragem, buscar aulas em escolas. Com trinta e três anos, minha profissão, agora, era a de professor. De lá para cá, minha alegria é andar por salas de aulas. Argumentar, discutir, tentar ensinar . . . Entretanto, o momento sublime ao lado do menino filho da antiga vizinha nunca desapareceu da minha cabeça. E, em menos de um ano na nova profissão, iniciei o trabalho de atendimento aos problemas e distúrbios em matemática. Já são mais de 22 anos! Desde os casos mais simples de dificuldades até as mais severas discalculias, minha vida tem sido uma batalha sem fim contra os problemas (que muitos encontram) para aprender matemática. Tenho aprendido e falado muito sobre Educação Matemática. Encontrei parceiros incríveis nessa jornada. Há gente maravilhosa andando aí pelo mundo, nos quais consegui plantar sementes de amor pela matemática e pelos desafios que seu ensino representa. E acredito que ainda posso contribuir bastante com esse propósito.

Assim sendo, decidi montar este sítio, o qual ofereço a todos os que amam ensinar e aprender matemática. Sintam-se em casa! Sei como se sentem aquelas pessoas que não foram tocadas pela beleza e o prazer de se aventurar pelos caminhos de números e formas. E espero que, com a ajuda de quem passe a frequentar nosso espaço, possamos criar, questionar e avançar muito na arte de fazer com que paixões parecidas com a que me arrebatou na manhã de 1980 aconteçam sem parar.

E, por falar nisso, vale lembrar que, em 1990, nasceu meu primeiro filho, no qual colocamos o nome do meu primeiro aluno. Hoje, com mais de 25 anos, meu filho já é também professor – mas, de Educação Física. E o Rogério sabe que seu nome veio de bem longe. Aliás, acho que veio do mundo das formas e dos conceitos. Do geométrico! Do belo! Do eterno!

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