ESTÃO NOS ACUSANDO DE COISA MUITO SÉRIA


Eleições municipais! Ladainhas e mais ladainhas! Promessas que tentam seduzir o eleitor a fim de que os votos apareçam e os hoje candidatos possam assumir cargos nas prefeituras e câmaras de vereadores. Na TV e no rádio, shows nos quais os candidatos parecem-se mais com atores do que com aspirantes a mandatários ou parlamentares. Nas suas falas, argumentos dotados de sabores que – esperam eles – possam nos apetecer. E tentam, de toda forma, nos atrair com interpretações acerca dos problemas de nossa cidade e promessas que, supõem, nos farão aderir à sua causa. Doces artimanhas através das quais, como diria Maquiavel, possam tomar mais tarde o poder. E depois? Bem, isso vai depender de tanta coisa. Por isso, muito do que prometem – e que, sabemos, em alguns casos nunca poderá ser realizado – parece ser mais canto de sereia do que proposta estudada a partir dos reais problemas da cidade. Pura sedução, mesmo! O negócio é falar o que queremos ouvir para que possamos identificar-nos com seu provável pensamento e outorgar-lhes nosso precioso voto. Então, o importante são as nossas vontades. As nossas convicções. Os nossos tais valores. Bem! É aí que minha cabeça começa a revirar suas minhocas.

Aqui em São Paulo - a maior cidade do Brasil, o tal centro econômico do país, o trem que não para -, em meio a essas conhecidas estratégias eleitoreiras, um fato explode e começa a me preocupar. Não se trata da viabilidade, ou não, das promessas. Nem se poderemos ser, ou não, enganados no futuro. Mas, sobre o que esses tais políticos – e seus muito bem preparados assessores – possam estar pensando sobre nossas intenções e – por que não dizer? – nossos valores. Muita gente costuma, pejorativamente, dizer que os políticos são corruptos, enganadores, sedentos de poder e toda essa parafernália que os desloca sempre para o lado mal da força. Porém, se observarmos bem, talvez sejam eles que pensam isso de nós. Talvez eles (os políticos) nos olhem como gente de péssimos valores. Se não vejamos.

Em São Paulo, vários candidatos a prefeito estão apresentando uma mesma proposta, a qual certamente julgam que atrai a maioria da população. Cada qual diz em suas propagandas que, se eleito, mandará reduzir a quantidade de radares de trânsito da cidade. Há quem diga que a meta é reduzi-los à metade. Com isso, livrarão o pobre paulistano do transtorno da multa. E parece que nossos candidatos e seus arautos marqueteiros estão tendo algum sucesso. Afinal, as candidaturas desses tais salvadores da pátria só faz aumentar. E o que isso quer dizer?

Se os radares servem para controlar a velocidade máxima nas ruas, verificar quem obedece os sinais ou garantir que os sentidos e as faixas preferenciais sejam respeitados, isto quer dizer que os mesmos são instrumentos de detecção daqueles que transgridem nossas leis de trânsito. São máquinas que, entre outras coisas, identificam os cidadãos infratores de nossa cidade. E, partindo-se da premissa de que as nossas leis existem para que a cidade funcione bem e nós vivamos melhor – e por isso foram discutidas, votadas e sancionadas -, os tais radares servem para garantir a cada um de nós que aqueles que ousam desobedecer serão avistados, identificados e punidos. Ou seja, tais engenhocas estão aí como forma de impedir desmandos e riscos para o cidadão. Mas, por alguma razão, os nossos candidatos avaliam que nós, os cidadãos de bem, não queremos este controle. Será que estão certos? Será que não queremos que as leis sejam cumpridas?

Nossos candidatos, ao dizer que reduzirão drasticamente a quantidade de radares estão nos prometendo que, caso andemos em velocidade 20% maior que a permitida em certos locais, não seremos punidos. Mais que isso: garantem que, se transitarmos na contramão de avenidas sem controladores eletrônicos ou policiais, nada nos acontecerá. Os semáforos que, de vez em quando avançarmos, não serão motivos para que a triste punição da multa aconteça em nossa já tão dura vida. Nossos candidatos estão nos prometendo que poderemos desobedecer as leis sem que nada nos aconteça. Eles estão contando com o nosso voto e, para tanto, pensam incorporar em suas falas nossos anseios e nossos valores. Posso me enganar, mas arrisco, aqui, uma suspeita: são eles que estão desconfiando do nosso caráter, e não o contrário. E, o que é pior, estão subindo nas pesquisas.

Algumas pessoas me dizem para não me preocupar, que essas são apenas promessas vazias, que não se pode mudar sem mais nem menos o que está na lei etc. Porém, não se trata disto. O problema é muito maior. Bem pior que aumentarmos o caos no trânsito, termos mais riscos de acidentes ou coisa assim, é constatarmos que possivelmente prefiramos mesmo a comodidade de não pagarmos multas à obrigação de cumprirmos a lei. Afinal, por que esses políticos estariam apostando nisso? Além do quê, se estamos votando em quem nos garante que podemos transgredir sem medo de punição, isto pode significar que exista – por que não? - em nós a propensão para transgredir. E as tais pesquisas mostram algo importante: ainda que nada possa garantir que essas propagandas (de futuras infrações permitidas) estejam fazendo de fato com que os candidatos subam, é verdade que esse insulto a nós não os fez despencar. O efeito parece ser oposto. Chamam-nos de desonestos, questionam nossos valores, prometem-nos o direito de infringir as leis, colocar a vida das pessoas em risco, insinuam que gostamos de desrespeitar as normas e nada fazemos.

Em breve, teremos de conviver com mandatários que, hoje, nos questionam a retidão de caráter. Serão nossas autoridades. Administrarão e decidirão as questões de nossa cidade. Sabendo a partir de que valores foram eleitos, certamente darão continuidade aos projetos que aprovamos a partir de nosso voto. Afinal, falam dia e noite a mesma coisa e não os contestamos.

Num momento em que tanto mal se fala de nossos políticos, quando saímos pelas ruas exigindo honestidade e decência, quando nossa mídia clama por ética, eles nos dão um contragolpe. Ou, pior, um rabo de arraia. Os políticos de São Paulo estão certamente nos jogando de volta aquilo que lhes atiramos há bem pouco tempo. Parece que assimilaram bem os golpes que desferimos contra sua dignidade. Levantaram-se e voltam à carga. E, agora, estão nos escrachando, bem ao seu estilo, contando com a nossa boa vontade (sic). Será que estamos assimilando, nós também, estes golpes a fim de nos fortalecermos e os devolvermos mais tarde? Ou será que a violência dos mesmos já nos deixou tão grogues que nem percebemos mais nada?

João Luiz Muzinatti

Setembro 2016

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