PARA ONDE VAI A VIDA, AFINAL?


“Para que serve a Filosofia?” Fala enviesada de um jovem curioso ao me ver preparando uma aula sobre Nietzsche. “Vocês ficam falando um montão de coisas, e, no fim, cada um vai pro seu lado . . .” Havia um tom de desconhecimento misturado a crítica: por que perder tempo com tanta falação? Não me atrevi a estranhar sua indignação. Dentro do possível, tentei um pouco de didática a fim de me defender, mas, acho que não tive grande sucesso. Depois de alguma conversa, sinto que as coisas não mudaram. Certamente, meu jovem interlocutor saiu da mesma forma que chegou: perplexo e inconformado.

Estava no escritório – porta da sala aberta – escrevendo no meu notebook, quando o jovem que estava na recepção, de aproximadamente quinze anos, não se conformou com meu silêncio e introspecção. Foi entrando e quis saber sobre o que estava escrevendo. Expliquei-lhe que preparava a fala sobre o filósofo das marteladas, que queria poder sensibilizar os alunos para a beleza dos textos de Nietzsche. Falei a ele sobre meu grupo de alunos, todos adultos, os quais estavam começando a gostar do tal pensador. Mas, apesar de meu ânimo, pareceu não se interessar muito sobre tudo o que lhe dizia. Parecia-me, sobretudo, indignado. “Como alguém poderia perder tanto tempo com aquela baboseira?” Tentei explicar que a vida pode nos reservar surpresas, principalmente quando não a encaramos com um pouco de senso crítico. Mas, sua certeza e segurança chegaram a me espantar: “as coisas são o que têm de ser”. Além disso, o fato de se usar o nosso precioso tempo de maneira “improdutiva” parecia-lhe algo meio herético. Perguntei-lhe o que gostaria de fazer após o ensino médio.

“Engenharia”, afirmou-me sem hesitar. Contei, então, que minha primeira profissão tinha sido exatamente a de engenheiro. Talvez nossa conversa tenha sido ferida de morte exatamente neste ponto. “Não acredito! Trocou ciência, tecnologia, produtividade, por ficar discutindo sexo dos anjos?” Ele era muito bem articulado. Na clínica, fazia terapia junguiana. Seguro de si, não perdia oportunidade de despejar seu conhecimento e capacidade de raciocínio. “O senhor deve ter sofrido algum grande trauma a ponto trocar ciências necessárias ao nosso mundo por uma reflexão que, me perdoe, não leva a nada”. Um pouco petulante, era a perfeita expressão do sacerdote da vida produtiva, do mundo do necessário. Para ele, o mundo talvez pertencesse àqueles que pudessem torna-lo cada vez mais rápido, eficiente e luminoso. E eu, ali, era a antítese de tudo isso. Um sujeito que desperdiça tempo criando baboseiras para fazer ainda mais gente fugir da realidade. Quem sabe sua indignação fosse indicativo de que eu deveria ser combatido. Em nome do mundo do progresso, gente como eu tinha de ser banido. Como o mundo poderia dar certo tendo gente que troca a seriedade de uma vida produtiva por um ócio proposital? E, pior, ainda faz discípulos e os tenta leva-los ao vazio com ele? Tentei contemporizar.

“Quem sabe a filosofia não seja uma coadjuvante da ciência? Talvez sejamos fiscais dos cientistas. Afinal, o conhecimento pode ser usado de vários modos. Possivelmente, nós sejamos aqueles que defendem a ciência e o humano de desvios, de autoritarismos, de exclusões . . .” E consegui, ali, um pouco de sua reflexão. Mas, durou pouco. Ele era muito incisivo e parecia nunca duvidar de suas razões. Após rápida tomada de fôlego intelectual, disse-me, absolutamente confiante, que “o mundo é que decide o que é certo ou errado; o que não der certo será descartado”. Para ele, “não há por que parar: a vida é muito valiosa para a gente perder tempo com bobagens”.

Pensei que, justamente naquela noite, falaria aos meus alunos sobre a valorização que Nietzsche dava à vida. Pensei em que pensara no humano como “animal de rebanho”, como ser ressentido, como quem vive sempre voltado para um mundo idealizado, distante daquele onde nossos instintos e nossa potência vital possam se realizar de fato. Até cheguei a me questionar sobre qual de nós dois – eu ou o rapaz – estaria, de fato, em busca de uma vida realmente mais feliz e plena.

Ao sair da sala, observou a capa de um livro que estava na estante, onde se via um esboço de um veleiro. E, voltando-se para mim, despediu-se com uma observação douta e, mais uma vez, completamente segura. “Temos de ver para onde o vento sopra. Se não, vamos seguir sempre para o lado errado”.

João Luiz Muzinatti

Novembro de 2016


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