DISCALCULIA: A QUEM PODERÁ INTERESSAR?

Nestes últimos doze meses, iniciamos um projeto que vem nos dando grande satisfação à medida que o vamos concretizando. Trata-se de uma formação introdutória sobre o distúrbio de aprendizagem que se usa denominar, em nosso país, Discalculia do Desenvolvimento. Objeto, já, de muita falação, além de várias polêmicas, a discalculia vem ganhando o espaço - que acredito – seja justo. Não dá mais para negar: certas dificuldades específicas que o aprendizado das matemáticas revela; a necessidade de nos debruçarmos sobre elas a fim de minimizá-las – já que causam grande sofrimento aos estudantes – e a consciência de que tais intervenções necessitam de conhecimento. E nosso curso parece estar despertando muita gente (e instituições) para isto.

Neste ano que se passou desde a primeira edição do curso, muita gente resolveu acreditar conosco e partir para uma das discussões que considero mais pertinentes em se tratando de educação básica. Isto porque a disciplina escolar Matemática, além de conteúdo considerado dos mais importantes para a formação da pessoa, representa também fator de conquista de autoestima e confiança na trajetória escolar de nossos jovens. É comum vermos pais, na relação cotidiana com seus filhos, até mesmo, sobrevalorizando o aprendizado de matemática. Escolas consideradas “fortes” são – até, a meu ver, injustamente – aquelas que dão um trato mais profundo e exigente nas disciplinas relacionadas à ciência dos números. Então, ao jovem que coleciona fracassos, desde cedo, em Matemática, cabe um olhar mais respeitoso e voltado para reparar equívocos que se arrastam há décadas.

Desde março do ano passado, professores, coordenadores, profissionais da saúde e pais de alunos nos dão o prazer de suas presenças. Os cursos têm sido muito bem aproveitados – eu sinto – por aqueles que se dispõem a abrir mão de quatro horas de seus momentos de folga para aprender um pouco mais sobre este distúrbio que tanta exclusão tem trazido para nossas salas de aula.

Professoras do chamado Ensino Fundamental 1 – do 1º ao 5º ano – têm sido nossas mais frequentes companheiras em manhãs de sábado. Escolas mais preocupadas com uma formação completa de seu corpo docente vêm viabilizando o curso a seus profissionais. Até mesmo faculdades de educação matemática nos têm dado a alegria de enviar seus profissionais ou de nos chamar às suas dependências para ministrarmos o curso – até mesmo em outros estados do Brasil. Há professores e instituições que, cientes do tanto que necessitamos, todos nós, de nos desenvolvermos no conhecimento dos distúrbios em matemática, já negociam futuros momentos de aprofundamento. Com tudo isso, só nos resta ficarmos felizes por vermos nosso projeto coroado de êxito e, obviamente, continuar com ainda mais garra.

E, hoje, depois da experiência vitoriosa deste ano discutindo a discalculia, me pergunto: a quem a mesma pode interessar? Aos professores, às instituições, aos que comandam nossa educação? O que, cada vez mais, me parece certo é que nosso aluno, silenciosa ou estridentemente – dependendo de sua reação no dia-a-dia da sala de aula -, nos pede ajuda. Nos diz que possui uma inteligência e a mesma pode – e deve – ser valorizada. E que cabe a nós tomarmos as rédeas e conduzir este processo a um lugar onde todos possam aprender, e não somente aqueles para os quais as aptidões e a história de vida coincidem e propiciam uma trajetória mais tranquila no aprendizado de matemática. A democracia na Educação passa, principalmente, pelo movimento que visa dar condições a todos de apreender o conhecimento engendrado pelo humano em milhares de anos. Afinal, ele pertence a todos nós!

Prof. João Luiz Muzinatti

Imagens de nosso curso, realizado em 18 de fevereiro de 2017, no espaço Saudável Mente, SP.


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