RELATOS DE UM "DIA DO PROFESSOR"

Parabéns, professor! Só você, mesmo!

Hoje, passei o dia lendo e ouvindo elogios. Minha profissão "é abençoada", trabalho "com o humano", com o "futuro"...

Lindas falas e uma série de agradecimentos de ex-alunos - todos sinceros, com certeza.

E a verdade é que, mesmo feliz com tantas manifestações de reconhecimento, fico ainda perplexo. Afinal, se tudo isso é verdade, por que o professor é assim tão aviltado? Por que, na escola particular, cobra-se tão alto dos alunos e se faz conta de centavos no momento de negociar nossos irrisórios salários? Por que, na escola pública, um professor ganha tão pouco - a ponto de cursos como Física, Matemática, Química etc estarem fechando as portas em várias universidades? Por que, por exemplo, em qualquer parte do mundo, o pior dos engenheiros sempre terá salário maior do que o professor que o formou? (E tal máxima talvez possa ser usada em qualquer outra formação, que não seja a de professor, claro!)

Por que não há, no congresso, uma bancada da educação?

Será que somos, mesmo, tão importantes? Será que a nossa luta diária tem ressonância com os anseios e convicções de nossos alunos, suas famílias, nossas coordenações e direções? Será que somos profissionais importantes a ponto de inspiramos nossos alunos a serem como nós? Será que um cirurgião plástico ou um advogado terão de dizer no final de suas carreiras frases equivalentes a esta consoladora (que usamos) : "foi muito sofrido, mas a satisfação de ter podido formar alguns alunos inesquecíveis compensa tudo"? Profissionais de outras áreas mais reconhecidas necessitam também deste paliativo de despedida?

Não gosto de ser chamado "sacerdote do conhecimento". Não sou sacerdote de nada! Não sou sacerdote! Assim como a maioria das pessoas, escolhi um campo de trabalho e me tornei profissional. Alguém já ouviu algum cirurgião famoso ser chamado de sacerdote? Será que esses profissionais "de sucesso" precisam ser chamados de sacerdotes? Por que nós temos de ouvir isto?

Hoje, eu comemoro minha decisão de ser professor - afinal, é o que sei fazer na vida -, mas lamento que os elogios me pareçam muito mais admiração pela nossa "abnegação" e "desprendimento", do que pelo valor profissional que veem em nós. A quem poderá interessar esta abnegação? Em nosso mundo capitalista, há um jeito tradicional de se valorizar profissionais. Acho que não preciso dizer qual é, não é mesmo?

E é bom parar por aqui, pois, na certa, algum leitor já deve estar pensando que "este professor aí não é como eu pensava: só pensa em dinheiro". Verdade: pra que diabos professor vai querer dinheiro?

Só deixo uma pequena historinha vivenciada com mais cinco colegas professores.

No ano passado, estávamos tomando café numa padaria e fomos vítimas de um assalto coletivo - o tal do arrastão. Lá pelas tantas, o ladrão olha pela janela e começa a exigir: "o dono daquele Sorento, quem é? Quero a chave! Já!" Após a terceira fala do assaltante, um colega alertou: " que Sorento? Aqui só tem professor! " E, entre desanimado e apressado, o homem tratou de assegurar que ali estavam todas as nossas coisas de valor, e foi-se embora.

João Luiz Muzinatti

15 de outubro de 2016


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