HISTÓRIAS PERDIDAS NO ESPAÇO-TEMPO

Numa aula de Física, em algum ponto do espaço-tempo, no mundo do possível e do impossível – não importa: as coisas acontecem de várias maneiras: fatos e versões se confundem tanto!

- Olá, Charles!

- Oi, professor! Nem tinha percebido que o senhor estava aqui. E ... eu estou ... Bem, estou ...

- Não precisa dizer nada, Charles! Estou vendo! Em plena aula de física, brincando com esses insetinhos. Você é sádico ou o quê? Eu passei uma tarefa pra vocês. Não ouviu? Tem de resolver esses exercícios sobre a gravitação. Todos os seus colegas estão fazendo. Por que só você não?

- É que eu ... Eu já ia começar. Vou fazer agora. Pode deixar.

- Não é isso, Charles! Você não percebe? Faz tempo que eu presto atenção em você. Sabe, você tem uma mente privilegiada! Por que diabos ficar brincando com bichinhos quando estamos estudando algo que será fundamental para sua formação? Vai trocar o legado de Isaac Newton por uma bobagem qualquer?

- Não! É que eu percebi um comportamento interessante nesses insetos e queria saber se eles são ...

- Por favor, Charles! Ainda por cima quer me provar que está certo? Jogue isso fora, agora! Há uma lista de exercícios de Física para fazer. Isso é o mais importante, no momento. Afinal, você é um estudante: deve saber sobre coisas importantes. Ah, como queria poder ter alunos comprometidos! Não percebe que você tem o privilégio de estudar enquanto tanta gente morre de fome? Este conhecimento vai fazer de você um grande homem. Mas ... ficar brincando com formiguinhas ...

- Não são formiguinhas, professor! São ...

- Pare, Charles! Não me desafie! Quero que você seja um grande homem. Já falei que tem uma inteligência bem superior à média dos seus colegas. Quer jogar isso fora? Pense na universidade. Como vai querer galgar um posto alto na vida acadêmica e no mercado de trabalho parado aí, brincando com pernilongos?

- Não! Não são ...

- Chega! Ou você retoma sua lista de exercícios ou vou mandá-lo à coordenação!

- Si ... sim ...

- Não é por mal. É para o seu bem. E, quem sabe, para o bem da humanidade. Veja ali, seu colega James. Ele é tão inteligente quanto você. Mas entendeu a proposta. Aliás, estou certo de que já deve ter acabado a tarefa. Por que não se junta a ele? Vai perceber o tempo que está perdendo. James deve estar cansado de esperar por vocês todos. E sabe o que vai começar a fazer? Jogar aviõezinhos quando eu não estiver olhando. E tudo porque você e seus colegas demoram tempo todo para fazer uma lista simples como esta. E você, em particular, nem começou.

- Tá certo, mestre! Vou começar.

- E trate de se livrar desses mosquitinhos de uma vez!

- Nã ... não! Ah ! Si ... sim, mestre. É pra já!

Bem! O espaço-tempo tem lugar para tudo e para todos. Estes mesmos alunos também podem estudar Biologia. Aliás, outro saber fundamental.

- Olá, meu querido!

- O, oi, professora! E, eu ...

- Não precisa dizer nada, James! Eu estou vendo. Você está brincando com uma bússola, uma pilha e esta lâmpada. Sabe que eu enxergo bem e sei distinguir os objetos? Aliás, venho observando sua postura não é de hoje. O que está havendo, meu querido? Posso te ajudar?

- Nada, professora! Nada mesmo! É que eu tive uma ideia sobre a bússola e a ...

- Querido, será que, neste momento, há algo mais importante do que seu trabalho de Biologia? Veja, não sou uma professora tradicional. Permiti que vocês se reunissem em grupos, consultassem tudo o que quisessem, poderiam até ir à biblioteca ... É um trabalho planejado para apenas cinquenta minutos. É fácil! Mas, você nem grupo tem! Acho que nem ouviu as minhas instruções.

- Ouvi, sim, professora! É que eu ...

- Ai, ai, meu amor! Lá vem você querendo ter razão! James, eu estou te observando. Sei muito bem o que é um aluno. Sei o que é uma sala de aula. Procuro me atualizar como professora. Sei que vocês, muitas vezes, se sentem desmotivados. Então, procuro tornar nossas aulas interessantes. Veja, querido: há algo mais lindo do que uma rosa? Então! Pois estou dando a vocês a oportunidade de estudarem o caule de uma beleza destas. E permito todo tipo de pesquisa que queiram.

- Eu sei, professora. Todos os alunos adoram a senhora. Eu também! Só que eu estava estudando ...

- Ai, ai, meu lindo! Por favor, né! Tudo menos isto! Estudando? Sabia que pode brincar o quanto quiser em seus momentos de recreio? Além do que, sempre reservo uns instantes das nossas aulas para que vocês conversem do que quiserem. Não é mesmo?

- É, sim! A senhora é muito legal! Peço desculpas. Apenas estava ...

- Não, não, meu querido! Não precisa se justificar, nem insistir nas desculpas! Sei da sua competência e capacidade. Sei que é um menino do bem. Só queria que aproveitasse as oportunidades que tem de estudar e se tornar uma pessoa melhor. Você merece! Além do mais, os vestibulares estão aí! E, se não estudar pra valer, ficará cada vez menos competente para o mercado de trabalho. Você sabe que eu tenho razão, né?

- Sei, sim, professora! Só queria que soubesse que ...

- Tá tudo certo, James! Desta vez, eu perdoo. Mas, tente não ficar pra trás dos seus coleguinhas. Veja só o Charles, ali! Parece que é o único que percebe a importância do conhecimento. Vejam os seus colegas do grupo. Eles pensam que eu não estou vendo: todos se aproveitando do que o Charles faz. Ah! Se eles percebessem como é importante saber mais...

- É! Tá certo, professora!

- Faça o seguinte, meu doce: tente fazer amizade com o Charles. Vai perceber que menino compenetrado e centrado ele é. Quem sabe ele possa te ajudar a retomar a seriedade nos estudos. Certo, queridíssimo?

- Certo, professora! Muito obrigado pela ajuda.

- Não há de quê. Esta é a minha missão no mundo!

E, até mesmo nos pontos mais perdidos e confusos do espaço-tempo, as pessoas se encontram.

- Ô, oi!

- Olá! Tudo bem?

- Tudo! É que ... sabe ... a professora de Biologia, Marie, me falou para fazer amizade com você. Não sei se gostaria de ...

- Nossa! Que coincidência! O mestre Belarmino, de Física, também me disse para falar com você. Acho que eles querem ...

- Acho que ela quer que você me ajude na Biologia.

- E ele quer que eu aprenda sobre física com você. Está preocupado com o meu futuro, sabe?

- Sei como é. Ela também me disse o mesmo. Ainda bem que não nos mandaram para a coordenação.

- Se depender do Senhor Belarmino, estou correndo um risco sério. Ele não é mole, não! Na semana passada, quase acabou com a vida do nosso amigo Giordano. Também, pudera, o cara é muito voador. Queria expulsá-lo!

- Eu soube. Mas, do jeito que o Gi se comporta ... Acho que ele não vai ter salvação, não. Eh, eh, eh ...

- Sabe, James! Eu tento me interessar por física. É legal! Mas, umas coisas tão interessantes me passam pela cabeça ... Eu sei que, se não me formar e não tiver um diploma valioso como o do nosso colégio, talvez não seja ninguém. Mas ... Sabe! Gosto de estudar, mas ... Eu me interesso mais pelas coisas que dizem respeito aos seres vivos. Sabe, vivo tendo umas ideias e ... gostaria de experimentá-las, ver o que acontece. Bem! Acho que ele tem razão! A escola sabe melhor que nós do que a gente precisa, né?

- Acho que sim. No meu caso, penso também assim como você. Queria saber sobre todas as coisas que a escola preparou para nós. Mas, há algo de que eu gosto muito. Gosto mais do que tudo. Ah, se eu pudesse usar as aulas de outro jeito ...

- Acho que o Belarmino também está no teu encalço, hem! Cuidado com esses aviõezinhos! Ele vai te pegar. Se bem que ninguém os faz voar por tanto tempo quanto você. Pena que não dá para mostrar pros professores.

- É! Sei disso. O que acha que devemos fazer? Acho que temos problemas parecidos.

- Não sei ao certo. Que tal se eu fizesse tuas tarefas de Biologia e você, as minhas de Física? Na aula, a gente disfarça. Com o Belarmino, eu fico estudando do seu lado, fingindo que estou entendendo. Até copio tudo o que você escrever. No dia da prova, você me passa as resoluções dos problemas. Já percebi que o Bela é meio surdo ...

- Mas, isso é errado, Charles! Nossa! Você é um transgressor, hem! Um dia, ainda vão te colocar numa fogueira! Apesar de que essa ideia não é tão má, assim. E, como a professora Marie é boazinha e dá as provas com consulta, podemos dar um jeito de trocar os papeis e eu escrevo tudo do seu jeito. Acho que topo!

- Afinal de contas, eles querem nos ajudar, certo? Ah, ah, ah ...

- Combinado, então! Daqui a pouco, tem aula de Biologia. Vou colar em você, certo?

- Beleza! Acho que estou alegre em poder ser seu amigo. Vai ser legal!

- Por falar nisso, você já leu este livro?

- Que língua é essa?

- É dinamarquês. De um tal de Kierkegaard. Falaram que é legal. E tem um tipo, na minha rua, que acabou de chegar da Dinamarca. Ensino inglês pra ele, e ele me traduz o livro. A gente se reúne às quintas, depois da aula. Quer participar?

- Claro! Mas fica só entre nós! Se os professores sabem que estamos desperdiçando nosso tempo, vão querer chamar nossos pais.

- Nossa! Nem pensar! Guardemos segredo, ok?

- Fechado! Epa! A aula já vai começar. Vamos ao teatro, amigo! Uhuuu!!!

O espaço-tempo é mesmo amplo, diversificado e abriga a todos. Em todos os tempos, podemos ter encontros. Ah! Quantos encontros possíveis não se realizaram! Porém, quantas realizações se deram quando menos se poderia imaginar!

No século XIX, um sujeito chamado Charles Robert Darwin era estudante de medicina e – pasmem! – abandonou esse curso tão concorrido para sair pelo mundo estudando as espécies vivas. Fez uma viagem num navio e escreveu um livro, o qual guardou e esperou cerca de vinte anos até ter coragem de publicá-lo. Darwin, com esse texto, mudou a percepção da ciência quanto à vida. Sua teoria da evolução abalou as convicções religiosas e nos ajudou a olharmos para nossa existência de maneira mais simples e livre.

No mesmo século, outra pessoa – um cidadão comum entre tantos outros, de nome James Clerk Maxwell – deu um toque decisivo na física de seu tempo. Dificilmente, alguém realizará cálculos envolvendo eletromagnetismo sem usar as famosas “equações de Maxwell”. Este notável cientista, aos quinze anos de idade, fazia coisas que os professores não prescreviam. Por exemplo, nesta idade, desenvolveu um método de traçar curvas ovais perfeitas.

Um educador idealista talvez pensasse sobre a riqueza que seria se os dois cientistas – os verdadeiros - tivessem sido colegas de escola. Já pensaram? Se houvesse uma lógica no espaço-tempo! Ambos dariam força, um ao outro, para que se imiscuíssem juntos, de corpo e alma, nos mais variados caminhos do saber. Que aulas seriam possíveis! E, certamente, o mundo teria evoluído mais; a ciência teria caminhado bem mais rápido. Seria bom, sem dúvida! Que sonho!

Só que o espaço-tempo ... Quem sabe? Há tantas possibilidades e tantos caminhos que não conhecemos! Pode ser que, hoje mesmo, nas aulas ... Ah! Se nossos alunos pudessem perceber, como nós educadores, a importância do conhecimento!

João Luiz Muzinatti - maio de 2018


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