Quem são os loucos?

Texto de junho de 2015, publicado na revista Direcional Escolas

Na última semana, conversando com pais de alunos, deparei-me com uma questão interessante, para não dizer intrigante. Uma senhora, mãe de um aluno que acabara de completar doze anos, me perguntou de supetão por que razões eu achava que as escolas não conseguem convencer os alunos de que, como disse certa feita Francis Bacon, conhecimento pode ser poder. Explicando-se melhor, argumentou que, sendo o conhecimento algo diferenciador e engrandecedor, como explicar o desinteresse dos alunos. “Afinal”, atacou incisivamente, “parece que estão somente em busca de nota para que possam se formar logo. Não aprendem por gostarem de saber mais”.

Exatamente! – pensei – Não estava errada. Realmente, o que mais vemos em nossas escolas são alunos que não sonham em tornarem-se pessoas mais profundas e com maior repertório. Pelo contrário, em quaisquer classes sociais, o que percebo na maioria dos estudantes é um desejo estreito pelo saber. De fato, conhecer mais não faz a cabeça nem da metade dos alunos de uma turma – ou de uma escola toda, se quisermos. E a coisa não para aí: percebo também que, quanto mais crescem e se aproximam de completar a educação básica – e se definir, enfim, profissionalmente –, mais se desinteressam pelo conhecimento. E a contradição maior: querem muito ingressar numa faculdade que lhes permita a inserção no mercado de trabalho – como egressos de um curso superior. O resultado: sofrimento com estudos exaustivos de conteúdos que não lhes fazem qualquer sentido. Mas, qual a explicação para isso? Haveria, realmente, uma explicação?

Na verdade, após falarmos sobre os vários atrativos que concorrem com o conhecimento na sociedade em que vivemos, deixei a reunião bem mais perplexo do que quando a iniciei. Televisão, consumo desenfreado, falta de limites, Facebook, jogos digitais, jogos de futebol, marcas famosas . . . As argumentações de sempre. Mas, deve haver mais que isso. Não pode ser tão imediato assim. Afinal, aprender é poder ter mais domínio sobre o mundo. Entender as coisas que permeiam nossa vida, saber mais sobre quem somos, sobre nosso passado, poder vislumbrar tempos melhores . . . Qualquer um desejaria ter esse poder. Ou será que existe algo esquizofrênico em nosso mundo que os jovens já perceberam e nós, ainda não?

Vejamos. Quanto mais o humano aprende e se dedica à transformação da natureza, melhores deveriam ser as condições de vida no planeta, certo? Bem, talvez não seja exatamente assim. E pode ser que nossos jovens vejam mais longe que nós. Por exemplo, podem estar percebendo que destruímos nosso mundo – em doses homeopáticas, ou não – a partir de um imenso arsenal de conhecimentos acumulados. Como? Ora, com excesso de poluição, carros, impermeabilização inconsequente do solo das cidades, desmatamento, fabricação e venda de produtos prejudiciais à nossa saúde e à do planeta, desigualdade inconcebível, violência patrocinada . . . O preço de um estrondoso avanço tecnológico sem reflexão. E talvez o mais triste: tal realidade acaba passando despercebida e certos vilões são, até mesmo, chamados de empreendedores. E o que poderia estar dando errado na dinâmica que justifica e até sustenta logicamente a escola?

Saí de lá pensativo. (Na verdade, as dúvidas ainda persistem, e como!) Não podia – e não posso – engolir essa história de que “são os jovens de hoje o problema”. Há coisas muito maiores. Os adultos os têm nas mãos desde que nascem. Ensinam-lhes tudo o que lhes parece importante. Colocam-nos nas escolas que consideram as melhores. Como pode haver esse desvio de rumos? Alguma coisa havia fugido ao controle. E, quanto mais tentava entender, mais louco tudo me parecia. E foi aí que tive uma ideia.

Pensando realmente que tudo aquilo era uma loucura, decidi deixar de lado as considerações pertinentes e racionais. E decidi consultar ninguém menos que a própria Loucura.

Explico melhor. Chegando em casa, corri até o livro Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, escrito no início do século XVI. Sátira pesada às elites (principalmente religiosas e intelectuais) de sua época, o texto de Erasmo parece conter muitas advertências contra aquilo que fazemos – ainda hoje – com grandes convicções e seguros de que é o melhor para nossa vida e nossa sociedade. Colocando a Loucura – protagonista principal do texto – em primeira pessoa, vai enunciando o que considera absurdo em seu tempo. E vejam com o que me deparei, entre tantas outras coisas:

"Os homens, enfim, querem ser enganados e estão sempre prontos a deixar o verdadeiro para correr atrás do falso. Quereis disso uma prova sensível e incontrastável? Ide assistir a um sermão, e vereis que, quando o cacarejador (oh! que injúria! enganei-me, desculpai-me), queria dizer, quando o pregador aborda o assunto com seriedade e apoiado em argumentos, o auditório dorme, boceja, tosse, assoa o nariz, relaxa o corpo, inteiramente enjoado. Se, porém, o orador, como quase sempre é o caso, conta uma velha fábula ou um milagre da lenda, então o auditório logo se agita, os dorminhocos despertam, todos os ouvintes levantam a cabeça, arregalam os olhos, prestam atenção".

Não é possível! Erasmo parece ter viajado ao futuro, não acham? Terei enlouquecido ou, hoje, as coisas mais sérias e profundas – faladas, escritas ou propostas como temas de estudos ou pesquisas – acabam sendo objeto de desdém por adultos e crianças? E as coisas que emplacam, salvo engano estratosférico deste articulista, são aquelas que remetem a fofocas, piadas ou, no máximo, a alguma curiosidade (como aquelas que evocam seres de outros mundos e coisas do gênero). Estou delirando? Outro dia, um professor de Física, cheio de títulos em seu currículo, me contou que um aluno (seu) de primeiro ano do ensino médio lhe perguntou, em maio: o que é Física? Isto porque, após alguns meses de sono, o adolescente foi despertado por uma explicação do professor, na qual este disse que o skate pode sair pela tangente se o atrito com o chão for pequeno. Parece que o mundo somente ganhou sentido quando a aula passou a viajar de skate. Outro amigo biólogo me contava que, falando sobre o conhecimento na antiguidade, mencionou, lá pelas tantas, o nome Alexandre. Como nenhum aluno demonstrasse saber qualquer coisa sobre o maior general da história, esse professor falou-lhes do filme “Alexandre”. Neste instante, um aluno se lembrou que era “um sujeito gay”. Aí, a aula mudou de foco completamente. E a Parada Gay passou a ser o tema – que a grande maioria da turma quase conseguiu impor ao mestre. Mas, será que são só os alunos que fazem essa hierarquia de valores? Será que estes não vêm aprendendo – de longa data – a evitar discussões e temas mais profundos e dar atenção apenas a coisas mais “gostosas”. Ouço cotidianamente, de adultos, aquela velha frase: “estou muito cansado; trabalhei demais, hoje; não quero pensar; vou ver uma coisa bem boba na TV”. Não será uma loucura termos de nos alimentar, à noite, de bobagens para podermos trabalhar bem no dia seguinte? Ou será que bobagem é o que fazemos durante o dia? E tem mais. Quem de nós escolhe, de fato, passeios culturais, leituras e filmes reflexivos ao invés daquilo que a chamada indústria cultural nos vomita diariamente? Talvez não percebamos, mas estamos ensinando nossos filhos o tempo todo – não, somente, quando os chamamos pelos nomes completos. E como é que nós, adultos, que odiamos os tais “papos sérios”, queremos convencer nossos filhos de que estudar história antiga vale a pena? E vejam outra, da senhora Loucura:

"Os negociantes, sobretudo, são os mais sórdidos e estúpidos atores da vida humana: não há coisa mais vil do que a sua profissão, e, como coroamento da obra, exercem-na da maneira mais porca. São, em geral, perjuros, mentirosos, ladrões, trapaceiros, impostores. No entanto, devido à sua riqueza, são tidos em grande consideração e chegam a encontrar frades aduladores, particularmente entre os mendicantes, que lhes fazem humildemente a corte e publicamente lhes dão o nome de veneráveis, a fim de lhes abiscoitar uma parte dos mal adquiridos tesouros".

Posso estar delirando, mas isto não acontece ainda hoje? Vejamos. Quem de nós nunca terá escutado elogios à fortuna imensa deste ou daquele artista ou atleta de quem ousamos contestar o talento ou a capacidade? “Pode ser que ele não seja nada mesmo, mas você bem que gostaria de ter a grana que ele tem, não?” Aposto que não estou sonhando. Há muitos anos, em um debate de TV às vésperas de uma eleição, lá estavam dois empresários e um economista. Este era doutor e pós doutor por uma famosa universidade americana. Porém, os empresários é que eram chamados de doutores pelos repórteres que os interrogavam. O economista recebia o educado título de senhor. A diferença maior entre eles era, certamente, os expoentes das potências de dez que quantificavam suas fortunas. E o que é pior: naquele dia, a audiência do debate foi de quase cem por cento. E a moçada tem de acreditar (mesmo) que estudar e saber mais valem a pena . . . De que adianta saber muito, afinal?

Para a Loucura, sem dúvida,

"os que se aplicam ao estudo das ciências estão muito longe da felicidade e são duplamente loucos, porque, esquecendo-se de sua condição natural e querendo viver como outros tantos deuses, fazem à natureza, com as máquinas de arte, uma guerra de gigantes. De tudo isso, infiro que os verdadeiros felizardos são os que mais se aproximam da índole e da estupidez dos brutos, sem empreenderem nada que esteja acima das forças humanas".

Não creio que tenha encontrado a metade das respostas sobre os porquês de tamanho desdém pelo conhecimento. No entanto, creio que alguma luz essa nossa amiga Loucura pode nos trazer. Afinal, será que o que enumerei acima não poderia representar alguma distorção a certas lógicas aceitas em nossas vidas? E, se isto for verdade, como querer que os estudantes se aventurem numa sina de busca do saber, s

eja nas ciências, nas humanidades, nas artes ou no que quer que seja? Nós, pais e educadores, não estaremos oferecendo saber numa das mãos e futilidade e descaso para com o erudito e o profundo, na outra? Não estaremos pulverizando assiduamente suas cabeças com jargões pró-erudição e aliviando-os, em seguida, com doces fatias de “deixa pra lá”?

Aqui estão mais algumas elucubrações de alguém que não costuma desistir nunca. E, sinceramente, sinto que talvez tenha consultado menos loucos do que deveria. Afinal, pode ser que os jovens estudantes estejam, a seu modo, tratando apenas de dar sentido às nossas loucuras. Então, o Erasmo é só o primeiro da lista. E, antes de terminar este texto, dei uma passadinha pelas minhas canções e vi um CD do meu maluco favorito, o Raul Seixas. E sabe o que ele me dizia? “Quando acabar, o maluco sou eu!”

Prof. João Luiz Muzinatti


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