ALGUÉM ADMIRÁVEL


Assim meus pensamentos, perseguindo divina presa,

Contra mim se voltaram,

E me matam com sua mordida cruel.

Giordano Bruno

Ontem, um aluno me fez uma pergunta meio estranha, porém interessante e desafiadora. Queria - o jovem interessado e curioso - saber qual seria o filósofo que mais me causa admiração pela pessoa que foi. Aquele que admiro não apenas pelo conjunto de sua obra, mas pela vida que viveu. “Afinal”, disse-me o jovem, “acho que pensar não já não é algo fácil; e pensar livremente é ainda mais difícil. Então, talvez as vidas dessas pessoas devam ser bem ... complicadas ...” Interessante tal questionamento!


Quis entender, então, por que, cargas d’água, queria ele saber sobre isso. “Queria ter uma posição sua”, disse. “É que tenho percebido, até mesmo no presente (em nosso tempo), como é difícil pensar livremente. As pessoas estão sempre nos patrulhando, sempre nos investigando para saber se estamos deste ou daquele lado ... Então, fico imaginando que, talvez, grandes pensadores possam ter sido, também, gente que enfrentou o mundo, o poder ... E penso que, mesmo assim, foram a fundo em sua investigação das coisas. E muitos deles ...”. Muito clara a sua questão. E muito perspicaz, sem dúvida, um jovem de vinte e poucos anos que observa o mundo e percebe quão difícil é ser alguém original; e mais: como é complicado pensar em coisas que possam chocar e despertar desafetos. Então, deve, sim, ter existido gente que, nessa luta, tenha se tornado exemplar.


Pensei um pouco e, apesar de não viver agarrado a seus textos nem ministrar cursos sobre ele, decidi falar de Giordano Bruno. O jovem, revelando algum conhecimento sobre o sábio italiano, quis saber o porquê de minha preferência. E, sem dúvida, penso que acertei em cheio na minha escolha. Bruno é um grande exemplo de alguém que não foge, e não trai seu pensamento nem seus valores.


Inicialmente, falei um pouco sobre a trajetória do dominicano rebelde que, desde muito jovem, já se envolvia em polêmicas por causa de sua forma arrojada de pensar. Segunda metade do século XVI, cristianismo reformado, batalhas dogmáticas. Novos ares percorrendo as comunidades religiosas e acadêmicas. E desejo, muito desejo associado a certa desconfiança acerca das verdades que o mundo erudito consagrara até então. Bruno era, ali, um estopim a espera de uma boa razão para começar a queimar.


Acusado - injustamente, é bom que se diga – de ter assassinado um confrade que o acusara de heresia, foi processado e teve de experimentar muito cedo a sensação de fugir da justiça. Porém, a história relata que tal fato não o fez desistir de seus propósitos maiores, ou seja, de investigar aquilo que a filosofia de seu tempo consagrava: a realidade do mundo em que vivemos. O teor de suas ideias e a forma de tratá-las fazia com que os desafetos sempre se multiplicassem. O risco era sempre iminente e não se encontrava seguro aonde quer que fosse.


Por conta de suas várias fugas e tentativas de se estabelecer em algum lugar onde tivesse mais tranquilidade, percorreu várias localidades da Itália, além de viajar a outros países, como Suíça, França e Inglaterra. Neste último país, aliás, pôde frequentar a famosa universidade de Oxford, local em que acabou também entrando em atrito com docentes – os quais considerava por demais pedantes.


Católico que era, devido aos problemas enfrentados, teve de se mudar para a Alemanha, onde tentou, no luteranismo, um pouco mais de tranquilidade. Depois de um tempo, chamado para ensinar técnicas de memorização a um nobre de Veneza, acabou aceitando e voltou à Itália. Porém, lá, foi traído e denunciado à Igreja Católica por heresia. Conduzido a Roma, enfrentou longo processo que o acabou levando à fogueira da inquisição. Uma história marcada, sem dúvida, por intolerância e cerceamento. “Mas”, quis saber meu aluno, “o que propunha ele de tão grave assim”?


A verdade é que Bruno era um misto de pensador e pessoa engajada. Não bastava, para ele, ter ideias: ele as queria professar, e lutava por elas. E expliquei ao jovem aluno que o nosso filósofo era mais um daqueles que, entre outras coisas, acabou se encantando com a proposta – proibida na época - de Copérnico sobre o heliocentrismo. E saiu em defesa de tal proposição. Porém, não parou no universo heliocêntrico. Foi, de fato, muito mais longe.


Devido ao fato de ter uma formação bastante ampla, sua visão mesclava elementos neoplatônicos com filosofias mágico-herméticas, pitagorismo, epicurismo. Isto tudo somado ao fato de possuir um conhecimento bastante amplo acerca do pensamento aristotélico – o qual dominava os meios intelectuais de sua época. E, também, como acontecia com a maioria dos eruditos, dominava a geometria. Assim, Bruno foi muito além daquilo que se pensava – ou no que se deveria pensar - em sua época; fato este que determinou, inclusive, a proibição de seus livros por muito tempo.


Na sua visão, o universo não era heliocêntrico, apesar de concordar que o nosso sistema solar o fosse. Para ele, havia uma infinidade de sistemas solares deste tipo; e, portanto, haveria infinitos mundos. O universo seria, assim, infinito e, portanto, não teria um ponto central. A vida também seria infinita, pois cada átomo, sendo parte do todo (ou do Uno), jamais desapareceria. Não haveria, portanto, o fim de nada; mas a sua eterna participação neste universo. E o próprio Deus seria “infinito no infinito, em todos os lugares e em todas as coisas, nem acima nem fora, mas totalmente interior a todas as coisas”. Daí, podemos entender de onde veio tanta contestação ao seu pensamento. Apesar de ver tão longe, seu olhar acurado não deveria ser compartilhado. Não num tempo em que as verdades eram outras.


“Professor! É claro que a Igreja da época não podia tolerar isso. É óbvio!”


Meu jovem aluno, por não ignorar a história dessa época, já pôde perceber o massacre que Bruno acabou sofrendo. “Imagino que vieram pra cima dele, com argumentos pertinentes ou não”. E começou a entender aí por que Bruno foi, sem dúvida, um exemplo de liberdade, ainda que tolhido o tempo todo. Uma pessoa de coragem absurda e de um sentimento de justiça como poucos que já pudemos conhecer. Alguém que preferiu morrer a trair o rigor e a força de seu pensamento. Um homem que pode, certamente, ser exemplo de vida e amor ao humano, em quaisquer contextos que possamos evocar.


“Professor, acho que vou pesquisar mais sobre ele. Se possível, quero ler textos dele.” Disse isto e começou a pensar no que diria a seguir. Enquanto o observava, pensei que, realmente, hoje, Giordano Bruno é personagem cuja história (e o exemplo) de vida deveriam ser mais mencionados e estudados. E meu aluno não teve dúvida ao afirmar: “assim como na época dele, talvez, hoje, certas verdades devam ser questionadas, e muita coisa nova deva também ser proposta, não? Pena que o poder sempre encontra formas de calar aqueles que pensam diferente. Com ameaças ... ou até com prêmios. Que falta faz um Bruno, hem professor!”



João Luiz Muzinatti - julho de 2019

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