LÓGICA - NO FUTEBOL E NO ESTADO DE DIREITO


Acabo de conversar com alguém “indignado com os hackers que grampearam o ministro Sergio Moro”. A pessoa se diz “decepcionada com a ousadia das pessoas”. “Onde já se viu fazer isto com uma autoridade”!


Não pronunciei palavra, mesmo porque sei que não haveria qualquer chance de apresentar uma nova (e sutil) nuance a esta verdade: “o ex-juiz (ele) é vítima de um crime”. Apenas ouvi, calma e pacientemente, a enxurrada de dizeres (convictos e estridentes) de alguém que, de tudo o que temos lido e assistido nos últimos dias, só conseguiu captar a “invasão de privacidade” do então juiz federal de primeira instância. E sinto, sinceramente, que os próximos ventos bafejarão perfumosamente os desejos daqueles que preferirão inocentar o “paladino da justiça” versão “Deus acima de todos”. A conferir!


Entretanto, uma dor imensa me assaltou naquele momento, e permanece ainda em mim. A sensação de que, neste caso, a lógica está sendo espancada, torturada e aviltada solenemente. A lógica, herança do mundo grego, associa-se à pretensão humana de poder decodificar, em pensamentos e palavras, as leis que (possivelmente) governariam o universo. Então, usá-la de maneira torta e distorcida é algo que entristece. E, sinceramente, senti que nossa interlocução foi um ataque violento à lógica. Aristóteles deve ter rodopiado no túmulo. Não sei se consigo explicar o que percebo e sinto. Tentarei ser bem didático.


No país do futebol, uma maneira sempre válida de tratarmos questões sérias e profundas - de modo a poder sensibilizar as pessoas para sua relevância – é revesti-las da indumentária futebolística. Assim, vejamos um exemplo de situação em que a lógica poderá, ou não, ser pisoteada.


Pensemos num grande clássico paulistano: Corinthians X São Paulo, por exemplo. Para que o leitor mais apaixonado não pare de ler, vou usar os termos “um dos times” e “o outro time”. Então, vamos à cena. O juiz da partida, num dado momento do jogo, para ao lado do banco de reservas de um dos times e começa a dar instruções ao seu técnico. Instruções como: “manda seus meias usarem mais os jogadores das pontas que são mais ofensivos”; ou “seus volantes têm de se adiantar mais, pois a ligação com o ataque está ruim”; ou, ainda, “cuidado com este seu lateral, pois está deixando o lado direito desguarnecido”. Agora, imaginemos o técnico, e demais atletas, do outro time vendo esta cena. Certamente ficarão, no mínimo perplexos; e, no máximo, furiosos. Afinal, certamente, não entenderão como pode um juiz ajudar na organização de um dos contendores. Isto porque o tal árbitro deve ser neutro – pelo menos em tese.


Em tal situação – impensável no futebol – os jogadores e técnico do outro time se mobilizarão para que a partida seja interrompida e o juiz expulso – sim, ele mesmo! Imagino a torcida de um dos times achando normal o fato: “que há de mal nisso? Ele apenas quer tornar a partida mais interessante; ainda bem que temos juízes que pensam nisto; é justo!” Já a torcida do outro time ficará indignada e fará, certamente, muito, muito barulho. Dependendo do caso, poderá até haver batalha campal em frente ao estádio, perto do metrô ou até na Avenida Paulista. Aliás, no futebol, é quase certo que sim.


Quanto ao juiz, prezando muito seu prestígio e seus vencimentos (de quem atua na primeira divisão da elite do futebol), fará tudo para não perder o posto. E acusará repórteres de campo por terem apontado câmeras e microfones à conversa privada que estava tendo com o técnico de um dos times. As emissoras de rádio e TV, bem como os principais jornais a cobrirem a peleja, ficarão divididos. No dia seguinte, alguns soltarão: “árbitro do clássico tem atitude sinistra e ajuda um dos times”. Outros, entretanto, dirão: “parte da imprensa invade diálogo particular entre treinador e árbitro do ‘majestoso’[i]”. Aos torcedores de ambas as equipes, qualquer que seja seu sentimento, restará aquela sensação estranha de quem percebe que as coisas estão cheirando mal. Aos torcedores de outras praças, a certeza de que as coisas estão podres.


Pois bem, um juiz de futebol tem de ser neutro. Pelo menos é o que diz a regra. E essa neutralidade passa, entre outras coisas, pela certeza de que não irá colaborar com um dos lados; nem prejudicará deliberadamente, é óbvio, o outro lado. Qualquer situação contrária ao que está estipulado corresponderá a desvio naquilo que consagra a lógica da competição. Pode ser que repórteres intrusos devam ser punidos por invadirem uma conversa entre juiz e técnico de um dos times. Mas isso não torna normal ao árbitro se imiscuir na organização tática de um dos times.


É certo que as regras da política e do direito não são as mesmas que as do futebol. Entretanto, comungam da mesma lógica. No futebol, o juiz não pode atuar em favor de um dos times. Nem do outro, é bom que fique bem claro. Na justiça, também. Aliás, esta é muito bem simbolizada por uma balança equilibrada. Os pratos estão na mesma altura.


No placar, os nomes dos dois times estão escritos da mesma maneira. A competência maior deste ou daquele determinará números que aparecerão ao longo da partida. No Estado de Direito, presumo, deveria ser também assim. A lógica é a mesma. Toda reportagem invasiva será castigada. E juízes e técnicos que ultrapassarem a neutralidade, também. Não é bem simples? Pena não ter pensado, e dito isto ao meu interlocutor. Talvez tivesse entendido.


João Luiz Muzinatti - 26 / 07 / 2019

[i] Clássico Majestoso é a denominação pela qual o jogo entre Corinthians e São Paulo é conhecido.

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