Indisciplina é problema de quem, mesmo?


Matéria publicada em 06 / 02 2014 - Direcional Escola

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Há algumas semanas, discutindo com um colega professor, veio à tona o problema da indisciplina dos alunos. Parece que o muito gravevem se tornando absurdo e aparentemente incontrolável. Seja na escola pública ou na privada, a situação é a mesma. Alunos fazendo da sala de aula uma extensão do seu clube, ou mesmo da esquina onde se encontram para tratar dos mais variados temas, desde os muito importantes até os eventuais. E não tem hora para isto. Um momento de conclusão de raciocínio ou uma troca de professores parecem ter o mesmo valor. Ou, quem sabe, já não têm mais valor nenhum. Por falar em valor, a irreverência parece ser tope de linha. E a ousadia, então! Profissionais formados, adultos, alguns até de idade avançada, são tratados com a mesma consideração que o colega do lado. E ai do professor que ousa se indispor com eles. Desrespeito, insubordinação, agressão verbal e, sem exagero, até física. E quais as falas mais comuns nas escolas, e entre as famílias? “O responsável é o professor, pois não se impõe”. Mas, será que é assim mesmo? É simples assim?


Estava assistindo a uma entrevista com o competentíssimo e sensato professor Ives de L Taille, da USP, e surgiu essa mesma discussão. Sua visão veio muito ao encontro do que penso, e venho dizendo nas instituições por onde passo – aliás, em algumas, “passei”, entre outras coisas, por dizer exatamente isso. “A indisciplina não é devida apenas, e essencialmente, ao professor”. “Qual deve ser o papel, ou o dever, da instituição?” Não seria esta a principal responsável pela disciplina? – questiona De La Taille.


E vai além. “Sabemos que mestres são muito bem orientados quanto aos conteúdos, mas o que lhes diz a escola sobre o indisciplina dos alunos?” E que garantias, de fato, dá a escola aos seus mestres? Já paramos para pensar em quem deve ditar as regras? É mais viável que seja a instituição ou alguém que trabalha para ela? E o que seria, de fato, colocar regras? Afinal, a existência de regras não implica em que estas sejam cumpridas? E são, de fato, cumpridas?


Para estas e outras questões corolárias, muita coisa se diz nas famosas reuniões de planejamento. A escola sempre enfatiza que “o bom professor é aquele que sabe se impor e controlar a sala”. É sempre colocado que os mestres têm de saber “encantar” os alunos, e isso lhes garantirá a tranquilidade durante as aulas. E todos sempre recebem a promessa de que a escola estará junto deles, afirmando, respaldando e garantindo sua respeitabilidade. E isso dura até a primeira semana de aula.


Logo que acontecem os primeiros incidentes de indisciplina – perpetrados pelos educadores do outro lado da sala, que sabem muito bem que quem ganha as primeiras disputas já começa a dominar o território – surgem as primeiras frustrações dos professores. Alunos excluídos que retornam, para a surpresa de todos e principalmente do professor; falas ameaçadoras de pais – à escola e aos próprios professores -; ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) sendo usado de todas as maneiras e para quaisquer situações; professores tendo que fazer acareações com alunos, e ouvindo verdadeiros absurdos. Final da história, ou melhor, início: o pobre professor perde a pequena autoridade que ainda lhe resta depois de tantas desvalorizações – a salarial, principalmente – a que se submete ao longo da profissão. O que acontece depois, no decorrer do ano, não é novidade para ninguém.


E por que isto? Medo? De quem? De quê? O que a escola perde se conseguir se impor? O que seria educar na visão dos novos pensadores da escola? Tratar os alunos como clientes de hotéis cinco-estrelas? Deixar bem claro que, ali, são as famílias quem paga os salários dos mestres? Já paramos para pensar na energia (e no tempo) que se gasta para discutir os casos de indisciplina? Muitos colegas já me declararam que sonham poder usar esses longos momentos para discutir estratégias que elevem o nível do aprendizado. Alguém já parou para pensar que as famílias dos alunos excelentes também pagam – sejam impostos, ou mensalidades – para que seus filhos sejam atendidos com qualidade? Muitos gestores simplesmente não entendem por que seus melhores alunos, de repente, mudam de escola, indo para as tais “ilhas de excelência” da cidade. Por que será? E os resultados dos ENENs e dos vestibulares das universidades mais disputadas? “O que houve? Por que nossos alunos não aparecem entre os primeiros?”


Sem dúvida, este é um tema muito difícil – e, até, “perigoso” – de tratar. Mas, sem problemas. Quando já se é rodado na área, o medo de represálias sai na urina. Sei que muitos, mas muitos, mesmo, concordarão com tudo isso. E pode ser que este texto até seja levado para reuniões e discussões pedagógicas. Mas, sinceramente, sinto que, baixando a poeira, tudo voltará às vacas frias (e lentas). E não há que se culpar ninguém por isso. Afinal, somos educados para produzir, gerir e viver numa sociedade em que o consumidor é que manda. Trazemos quase no nosso DNA a reverência incondicional ao cliente – não creio ter visto em qualquer outro lugar do mundo alguém tratar, por exemplo, os garçons como se faz aqui; e os professores vem seguindo pelo mesmo caminho. Resultado: os últimos lugares nas avaliações internacionais. E um dado novo: vagas sobrando, nas universidades, nos cursos de Matemática, Física, Português, História . . .


Para onde correr? O que fazer para mudar este desenho? Quebra-cabeça para gente como De La Taille, que poderia estar se debruçando, hoje, sobre temas diferentes, no seu campo: “a Moral e a excelência”, “por que todos querem ser os mais sábios” ou, até quem sabe, “por que as minorias dos alunos muito indisciplinados são tratados com tanto desdém pelas instituições”?


Ao final de nossa discussão, eu e meu colega chegamos a uma triste constatação. Todos os anos, nas duas primeiras semanas, na maioria das escolas de nosso país, menos de uma dezena de alunos se apresentam com uma proposta subjacente, mas muito fácil de ser percebida. Eles nos perguntam se queremos que a nossa instituição se torne respeitável e dê segurança e tranquilidade a todos os alunos, ou se permitiremos que dominem o ambiente e definam o ritmo dos trabalhos até o fim do ano. Ao que parece, via de regra, ainda optamos pela segunda via.


Prof. João Luiz Muzinatti




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