UM ENCONTRO COMIGO



Dia desses, conversando com uma amiga, ouvi algo que me soou quase como um conselho. Pessoa preocupada comigo, pensando que já não sou mais jovem e imaginando algo com que eu possa me entreter nos anos que me restam, arriscou um desses palpites lisonjeiros que fazem elevar nosso ânimo. Possivelmente uma idealização composta por úteis e agradáveis acerca de um futuro no qual eu possa me alegrar ao mesmo tempo em que me torno útil ao mundo. Apenas um gesto de carinho de quem, de certa forma, respeita aquilo que fiz no passado? Uma sugestão discreta para que não me torne aquele ser sem perspectivas que costumamos ver por aí depois que a idade e a aposentadoria chegam? Não dá para saber o que se passou com ela, mas, se era para me fazer pensar e ficar tentado, suas palavras caíram com força de um tornado.


- Por que você não passa a escrever livros e fazer conferências sobre a escola? Você vive há mais de quarenta anos nesse mundo, e certamente tem muito o que contar aos novos educadores.


De certa maneira, pensei, já faço isso, pois sou professor em faculdade de licenciatura – ainda, apesar de já aposentado oficialmente. Mas entendi o que ela quis me dizer. Havia me sugerido que me dedicasse a escrever textos que trouxessem muitas das centenas de experiências vividas nessas décadas todas, e que os pudesse dedicar aos jovens que trabalham (ou se preparam para trabalhar) como mestres em escolas de educação básica.


No momento em que me fez essa sugestão, aceitei como algo possível – por que não? – e até agradeci, pois ela estava me fazendo um elogio indireto, já que sugerira que eu possuía repertório respeitável – pelo menos para a minha profissão. E como tal fala acontecera fora do contexto da nossa conversa, meus agradecimentos acabaram finalizando aquele ponto do diálogo. Porém, sem ter me incomodado ou animado, aquelas palavras acabaram por me provocar outra reflexão, a qual me fez quase perder o sono. Será que fui alguém importante para os meus alunos dos ensinos fundamental e médio? Sim: de que adianta ter vivido quatro décadas com eles, e ter presenciado de tudo, se não os fiz pessoas melhores? Afinal, num certo momento de minha vida, pensei, sim, que desejava poder ajudar a engendrar novos e melhores cidadãos a partir da minha profissão. Terei conseguido tal proeza; será que cheguei perto disso? Fui professor, durante muitos anos, de Matemática. Nesse tempo todo, falei muito sobre equações, geometria, trigonometria, números complexos ... Isso tudo terá sido útil para os jovens que estiveram, durante tantas aulas, a me olhar e escutar? Será?


E, lá pelas tantas, me veio uma breve recordação. Não do passado distante, mas de pouco tempo atrás. Uma lembrança que, se não responde a essas questões, pelo menos me ajuda a organizar (e até hierarquizar) um rol de fatos relevantes e quase apagados. Um primeiro fato a analisar dentro da minha vida profissional. Ou, quem sabe, um ponto de partida, bem ao modo cartesiano.


O fato deve ter acontecido três anos antes de minha aposentadoria, e o palco foi o portão de entrada do colégio no qual eu dava aulas para os 7os anos. Naquela manhã de sexta-feira, eu entrava mais tarde para o trabalho: por volta das 11h. Ao cruzar o enorme portão de entrada, antes de passar pelas catracas, cruzei com um rapaz de seus trinta e tantos anos, usando bermudas e empurrando uma bicicleta, que me encarou diretamente e sem cerimônias. A forma desbragada com que me olhou fez com que também fizesse o mesmo. E, ao fazê-lo, senti que o conhecia de algum lugar. Nada raro em minha profissão, pois damos aulas a jovens que crescem e, apesar de já não serem os mesmos quando os reencontramos, alguma coisa nos traz essa sensação de familiaridade. E, num gesto de pura curiosidade, virei-me e voltei a olhar para ele.


O rapaz já se encontrava a uns cinco metros de mim, mas estava parado e olhando em minha direção. Antes que eu esboçasse qualquer gesto, saiu falando:


- O senhor foi meu professor!


- É possível! – respondi, com tranquilidade – Tenho um tempo grande de estrada. É normal que isso aconteça. Você estudou nesta escola? Faz quase 10 anos que estou aqui.


- Não! – respondeu-me com um sorriso afável e inteligente – O senhor me deu aula há mais de 20 anos. Num outro colégio. – E tratou de me posicionar no tempo e no lugar onde havíamos nos encontrado, realmente, mais de duas décadas atrás. Fez um relato breve sobre colegas seus, dizendo-me onde vários deles estavam trabalhando após já terem cursado suas respectivas faculdades. Quanto a ele, tornara-se psicólogo, e estava ali no Colégio porque atendia uma criança e viera conversar com a coordenadora de sua série.


Em poucos minutos de conversa, pude saber do paradeiro de jovens de quem me lembrava – para minha surpresa – com certa riqueza de detalhes. E me lembrava bem também dele, jovem que, aos 14 anos de idade, já me chamava a atenção pela sua inteligência e bom humor. Ele se lembrou de vários momentos marcantes daquele ano, e soube narrá-los com detalhes a ponto de eu também poder visualizá-los gostosamente. E nossa conversa terminou, como sempre acontece, com troca de endereços e promessas de um possível encontro no futuro. Antes de se despedir, fez-me uma última pergunta, a qual me deixou perplexo:


- O senhor me deu aula de Português, certo?


Não! – respondi de supetão – Fui seu professor de Matemática, não lembra disso? Sempre fui professor de Matemática. Nunca dei aula de Português.


Nossa! - replicou-me, envergonhado – Desculpe! Não me lembro de nada sobre matemática. Apenas me lembro do senhor pelas coisas poéticas e filosóficas que nos dizia. Disso eu tenho muitas lembranças. – E, com um cordial sorriso, despediu-se e tratou de pedalar.


Sim, penso hoje. Depois de muito tempo, algumas coisas ficaram. As “falas poéticas”, as “reflexões” ... Eu permanecera em sua vida por coisas que não estavam em meus planejamentos; coisas das quais nunca tivera de dar satisfação à coordenação. A matemática? Bem, para ele não fez, pelo visto, grande diferença. No momento em que pensou em ser psicólogo certamente iniciou um movimento de esquecimento – ou talvez aqueles conteúdos (usados provavelmente em vestibulares) foram morrendo gradativamente.


Na certa, também não se lembrava sobre o seu real professor de Português daquele ano. E o que pensar disso? A poesia, as reflexões ... Quem sabe possa ter usado parte daquilo para se tornar o cidadão que é hoje. Sim! Pode ser ... Esse lado – meio periférico – de nosso encontro ficou. Aliás, foi só o que ficou. E meu sono veio! Porém, antes dele dois pensamentos.


O primeiro: sim! Acho que fui bom pra ele. Fiz bem e o ajudei a se tornar cidadão. E essa constatação pode servir de argumento para que pense em aceitar a sugestão da minha amiga. O segundo veio por conta da própria poesia, e do pensamento de um mestre – este meu – também inesquecível: Drummond. Um trecho de um poema que me faz sempre olhar para mim e para a minha vida. Uma fórmula! Ou uma sentença: “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”!



João Luiz Muzinatti - 14 04 2022

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