O MUNDO QUE ENSINAMOS E O MUNDO QUE SE APRENDE

Estava pronto para terminar um texto que deveria ser enviado hoje ao site. Dentro do prazo limite para o envio, faltavam alguns retoques. Minha ideia: falar sobre “a estranha apatia e o desinteresse de nossos alunos pelo conhecimento”. Depois de muito refletir sobre algo que pudesse ser relevante nos tempos que vivemos, pensara que, talvez, tentar contribuir para esta discussão seria algo pertinente – principalmente pelo fato de escrever preferencialmente para os chamados educadores. Decidi, então, refletir sobre esse sério problema de nossos estudantes. E dá-lhe escrever! Estava ficando ótimo! Entretanto, de tão certo que estava, acabei sendo abatido por uma explosão de perplexidade e descrença que transformaram meu trabalho inacabado em lixo. E por que isto? Porque, no dito texto, analisava o problema a partir dos próprios estudantes. Entretanto, ao ler os jornais desta manhã – 10 de junho de 2017 – uma verdadeira acrobacia foi realizada pelo meu cérebro. “Não! Não os alunos”, clamou meu aparelho de pensar. “Eles não aprendem o que ensinamos justamente porque desejam saber mais sobre o mundo. Só que percebem que, na maioria das escolas, são vítimas de um embuste”. É que eu acabara de ler sobre a absolvição da chapa Dilma-Temer no processo que julgava, entre outras coisas, o financiamento ilegal da campanha. Temer está livre e comemorando. Então, parto agora para uma outra análise da mesma questão.

É bom que se ressalte, aqui, a importância deste julgamento no TSE. Não apenas pela questão eleitoral em si, visto que os próprios autores da denúncia que engendrou o processo estão tão cobertos de lama quanto – ou até mais que – os réus na causa. Ocorre que vivemos um momento emblemático; há um possível movimento de transformação acontecendo no Brasil. Não me lembro de situações em que a corrupção fosse tão escancarada e explicitada quanto nos últimos meses. Nunca se deram tantos nomes aos bois – sem qualquer intenção, aqui, de bancar o engraçadinho – quanto hoje. E, particularmente neste processo do TSE, nunca imaginei ver tantas provas e confirmações de atos ilícitos pulularem sobre a opinião pública. A cada dia, fatos e comprovações de corrupção envolvendo aqueles que estiveram e estão no poder. E, no caso específico do mandatário maior do país – foco das atenções de todos nós, nos últimos meses -, denúncias paralelas de crimes gravíssimos, sempre na esfera da corrupção e do abuso de autoridade. Porém, foi absolvido. Não é possível que nossas ideias e planos continuem inabalados depois de uma decisão judicial aberrante como essa. Mas, o que a apatia e o desinteresse de nossos alunos - temas centrais do artigo abortado - têm a ver com isto? Tenho cá minhas impressões.

Nossos atuais estudantes não cresceram e nem foram educados de modo a participar das questões políticas de nosso país - como aconteceu a alguns jovens, nas décadas de 60 e 70 do século passado. Hoje, nossos ídolos maiores – nas artes, por exemplo – não fazem das questões sociais, das desigualdades e da manipulação ideológica, seus motes mais poderosos. A sociedade do espetáculo parece ter vencido e as aparências são, sim, o que importa. Porém, tenho uma suspeita: nossos alunos não são idiotas e percebem que o mundo dado não corresponde ao estudado.

As escolas em que estudam, portadoras de discursos que vociferam ética, valores, cidadania e autonomia, fazem mesmo, basicamente, aquilo que o freguês quer: preparação para os vestibulares e Enens da vida; cuidados com a segurança física dos alunos; entretenimento e atendimento às questões educacionais sempre focando mais o direito do aluno-indivíduo do que o da coletividade escolar. Os professores – alguns já girando felizes na roda da vida, outros amedrontados – professando sua fé na ciência e no “saber imparcial” (sic), dando suas aulas de maneira a fazer com que seus alunos possam acertar mais questões que outros em provas decisivas, e cumprindo rigorosa e cuidadosamente o rol de encargos acordados entre fornecedores e clientes – relatórios, roteiros de estudos, roteiros de pesquisas, provas substitutivas etc. E os verdadeiros valores ensinados de fato pelo mundo não são tratados na maioria das escolas. Explico.

Ontem, todos nós – inclusive nossos alunos, que, vez por outra, ouvem notícias que não sejam de esportes no Jornal Nacional – presenciamos o que de fato vale em nosso país. Negócios e acordos espúrios dando resultado; corrupção banalizada (justamente à custa de corrupção que financia o perdão à mesma); discursos hipócritas em tom de homilias; cinismo como atestado de impunidade; justiça a reboque de influências; descaso ao povo e a suas opiniões – algumas semanalmente ratificadas em pesquisas. Enquanto uma rede de discursos vazios recobre o dia-a-dia de nossas mais valorizadas instituições, cenas como as de ontem nos mostram que talvez o crime compense, sim. A tal “verdade” que propagamos e exigimos de nossos filhos e estudantes parece ser um camaleão que tem seu ciclo de mutações renovado a cada fala deste ou daquele personagem do mundo político, jurídico, empresarial, religioso... E os nossos jovens – hoje, não só da educação básica – vendo e absorvendo a realidade, ao mesmo tempo em que têm de memorizar e professar as “verdades acadêmicas” nesta ou naquela prova. Ontem, todos tivemos uma senhora aula de realidade brasileira.

Então, recolhendo aqui alguns pedaços do meu texto abortado, cito um colega professor falando sobre seus alunos. “Não querem saber de nada; só sabem jogar no celular; não ficam indignados, felizes nem intrigados com o que aprendem; parecem não ouvir quando falamos. Estão alheios ao mundo”. E coloco tal fala aqui porque discordo dela completamente.

Não só sabem sobre a realidade – porque a percebem muito bem - como entendem que a mesma lhes é sonegada em doses homeopáticas, todos os dias. Ao mesmo tempo, veem desfilar diariamente, sem reflexão crítica, conteúdos e mais conteúdos, vazios e desconectados do mundo e dos valores aprovados que constatam a todo instante. E isto na maioria das áreas que estudam.

Somente ontem, os acontecimentos proporcionariam discussões em todas as áreas do conhecimento. História, Geografia, Filosofia, Sociologia, nem seria preciso mencionar aqui. Porém, aulas de Língua Portuguesa seriam abastecidas maravilhosamente nos conteúdos, por exemplo, de retórica, eloquência, hipérbole e ironia. A própria Lógica teria um prato farto a seu dispor, bastando que se analisassem frase e contexto, a partir da pérola proferida pelo Ministro do supremo. O sujeito que, no passado, lutou pela manutenção e continuidade do processo em questão - quando este ameaçava a antiga ocupante do cargo de presidenta (eleita pelo povo) – ontem deu o voto de minerva (e misericórdia) afirmando que: “não é algum fricote processualístico que se quer proteger. Não, é a questão do equilíbrio do mandato. Não se substitui um presidente da República a toda hora, ainda que se queira, porque a Constituição valoriza a soberania popular”. Já imaginaram nossos alunos estudando a partir destas grandes aulas que as mídias nos fornecem gratuitamente, todos os dias?

Porém, seguimos, nós educadores, esperando que sejam prestativos, passivos e obedientes, a ponto de estudarem o vazio quando é o excesso de matéria, segundo Einstein, que modifica o espaço e transforma os movimentos. Não aceitam isto, simplesmente! Preferem seus jogos de tablets ou celulares. Afinal, ali, não há enrolação. Por incrível que pareça, nesses jogos, se erro o movimento e não destruo o adversário, o mesmo me mata. Não há marmelada! Ali, o real coincide com a informação. Quem sabe, nossos alunos estejam optando pelo mundo sem hipocrisias, e encontraram o dos jogos virtuais. E talvez estejam gritando por socorro quando ignoram aulas, estudos, provas e notas, para ficar contemplando seus games – e interagindo com seus colegas também já esgotados com tanto descompasso entre realidade e educação.

Talvez este texto não seja tão bem saudado pela comunidade educadora. Talvez não tenha tido tempo sequer de ser tão lapidado quanto o outro, já que veio de improviso. Mas, colocando-me na posição de fomentador de estudos e reflexões em nossa professorada – como se fora um professor de 9º ano querendo fazer os alunos gostarem da fórmula de Bhaskara -, tenho a esperança de poder com estas linhas trazer um olhar diferente sobre a apatia e o desinteresse pelo conhecimento. Ficarei contente, simplesmente, se souber que algum colega acolha minha dúvida. Serão mesmo problemas dos alunos? Ou será que vêm de outro lado?

João Luiz Muzinatti - JUNHO / 2017

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